Ouvi ontem de manhã no rádio e li hoje no jornal sobre o ranking das escolas brasileiras segundo o ENEM – exame nacional do ensino médio. Conheço o ENEM mas honestamente não tenho condições de opinar sobre, na verdade nem de avaliar qual exame é melhor (ou menos pior), ele ou o vestibular. Mas o que achei interessante nisso tudo foi o comentário do Boechat, no rádio, sobre o ENEM. Um coment’ario que representa bem o pensamento insano, porem masintream, que predomina nos nossos dias quando se trata de educacao. Ele disse algo como “não há nehum aferidor melhor de uma escola que as notas dos alunos”. Achei isso uma bobagem sem tamanho e vou contar porque.
Em primeiro lugar escolas como Sao Bento, Santo Agostinho e mesmo os colegios de aplicacao federal e estadual do Rio, tem um filtro rigoroso para admissao dos alunos. Um filtro, diria, condizente com a proposta de cada escola, qual seja: alunos potencialmente adequados ou adequaveis ao sistema, que possivelmente atingirao os resultados desejados.
Em segundo, não considero que esses alunos sejam os mais inteligentes. Nem os mais preparados para a vida. São os que melhor se adequaram ao sistema de ensino predominante hoje – baseado em decoreba e voltado pra resultados.
Para um olhar menos sensivel e atento, minha posicao pode parecer defensiva ou recalcada, mas nao e. Sempre fui uma aluna brilhante, cdf mesmo. Atingi os resultados desejados, pode-se dizer que com louvor, ingressei na faculdade de direito considerada a melhor do Rio com 17 anos recem-completados. Um historico e tanto, nao? Terminei a faculdade a duras penas, nunca advoguei, tentei mestrado mas desisti. Mas apesar de tudo acabei na maior empresa de auditoria do mundo, onde fiquei por oito anos. Segui direitinho plano de carreira da firma, cheguei a ser gerente, e era boa no que fazia. Os clientes gostavam de mim, trabalhei nos escritorios do Rio e de Sao Paulo, me destacava nos trabalhos que exigiam mais aptidao intelectual, embora detestasse as tarefas mais burocraticas. Mas o mais importante de tudo e que nao era feliz. Hoje onde estou? Em casa, cuidando da minha filha e da minha familia, um trabalho infinitamente mais relevante e desafiador, e tentando descobrir quem eu sou, o que gosto de fazer, o que quero da minha vida.
Isso basta pra justificar minha decisao de jamais colocar minha filha pra estudar numa dessas escolas consideradas maravilhosas de acordo com o ranking do ENEM?
E voces, o que acham do sistema de ensino no Brasil?
* perdoem-me a falta de acentos, fiz alguma cag*da no meu notebook e nao estou conseguindo usa-los.
Archive for the ‘mamães e bebês’ Category
Rankings e resultados
Wednesday, April 29th, 2009Fotos do fim de semana: carinho de chulé
Monday, April 27th, 2009
Fotos do fim de semana: nós fomos!
Monday, April 27th, 2009Pipoca ficou tão, mas tão feliz…o único porém foi que não conseguimos fazer a roda “girar com mais força”. Parece que tenho uma filha que gosta de emoções fortes.


Pipocando no forte – pérola
Friday, April 24th, 2009
Ela ficou encantada com a roda gigante, mas no horário em que fomos ao forte ela estava parada. Aí ela fala para o pai:
- Papai, quero andar na roda gigante.
- Mas tá parada, filha.
- Então você coloca ficha pra ela funcionar
))
Precisamos voltar lá urgentemente…
Liberdade para decidir e um link
Wednesday, April 22nd, 2009“(…)Freedom of conscience is protected under the doctrine of informed consent, which specifically protects the right to decline. For informed consent to be valid, a decision must not be coerced.”
(Peggy O’mara, em sua coluna na Mothering Magazine desse bimestre)
Só agora fui ler a Mothering desse bimestre (March-April issue), e adorei o tema abordado pela editora Peggy O’mara, que permeia nossa vida de forma bem ampla, não se aplicando apenas quando se trata de filhos e maternidade: a liberdade de tomarmos decisões conscientes e informadas. A polêmica na verdade não se restringe a bate-boca em listas de discussão e blogs, mas em alguns casos assume proporção tal que acaba em tribunais ou se torna questão de saúde pública. Infelizmente não tenho como linkar o texto, já que a revista não disponibiliza suas matérias digitalmente.
Estou citando a matéria aqui apenas porque lê-la só reforçou minha crença na importância de lutarmos pela liberdade de tomar decisões, e questionar sempre. Porque começamos a ser privados de liberdade desde muito cedo: da forma como nascemos, de acordo com a conveniência dos médicos – aqueles que, por puro medo, acreditamos saber o que é melhor pra nós. Depois quando temos nossa infância roubada pela intelectualização precoce e pela mídia. TV e publicidade ditam nossos gostos e interesses, acabando com a criatividade e, por que não dizer, manipulando e moldando. Nos tornamos logo pequenos robôs consumistas. Passamos a infância a juventude estudando por obrigação, em escolas que nos usam pra vender seus “produtos para nossos pais”. Somos obrigados a decorar o que “cai no vestibular” e muitas vezes jamais conhecemos o prazer em adquirir conhecimento. E depois somos obrigados a escolher uma carreira aos 16, 17 anos quando, salvo raras exceções, não fazemos a menor idéia do que queremos da vida. Passamos por um processo de seleção estúpido, conveniente a alguns, conhecido como vestibular, e seguimos nossa instrução formal em faculdades que não muito se distinguem dos ensinos fundamental e médio. E quando nos tornamos mães a pais, quanta coisa nos é imposta! A cultura do medo tem ainda mais força quando se trata de nossos filhos. Os pais que optam por parto domiciliar, por não vacinar seus filhos, por não abrir mão de uma educação tradicional, entre outras coisas, são considerados irresponsáveis.
Não se trata de defender aqui nenhuma dessas posturas, até porque a não ser pela última não foram opções que fiz como mãe até o momento. Quero apenas defender a liberdade de tomar decisões de esfera privada sem ter que nos submeter aos interesses da midia, da indústria farmaceutica e de outros mais, sempre camuflados como intereses em nome do bem comum. Parece um post “teoria da conspiração”, mas até nisso é preciso liberdade para avaliar: trata-se de teoria da conspiração mesmo? Talvez, talvez em parte, talvez não. A verdade é que poucos têm consciência das influências perversas que sofrem ao tomar decisões em suas vidas, das mais cotidianas às que realmente importam.
***
Quero aproveitar também pra linkar aqui minhas respostas a 10 perguntas sobre a busca e a escolha de escola, postadas no Futuro do Presente há alguns dias. Ninguem entrou no debate ainda, mas continua aberto e a troca de idéias é sempre bem-vinda.
Fotos do fim de semana: um final de dia típico no quarto da Pipoca
Tuesday, April 21st, 2009Nisso é que dá não assistir TV.

Fotos do final de semana: pipocando no restaurante japonês
Tuesday, April 21st, 2009
Final de semana: achados culturais e gastronômicos
Monday, April 20th, 2009
Primeiro achado: me apaixonei perdidamente pelo livrinho infantil Balanço, da japonesa Keiko Maeo. Ilustrações simplesmente lindas, texto encantador e um conceito interessantíssimo. Aliás, as crianças que me perdoem, mas é uma pequena obra de arte pra crianças e adultos. Tanto é que comprei pra mim, pois a Pipoca, ainda muto pequenina, não deu muita bola pra ele. Da Cosac Naify.
***
Uma dica pra quem é do Rio: a exposição “A Presença do Invisível: Vida Cotidiana e Ritual entre os Povos Indígenas do Oiapoque”, no casarão central do Museu do Índio.
Parênteses: não vou fingir que nossa experiência no museu foi 100% porque museu aqui no Rio, em geral, é uma tristeza (#prontofalei). Não sou de ficar metendo o pau nas nossas coisas, aliás adoraria dizer que no Brasil os museus se equiparam aos dos Estados Unidos e da Europa, mas não dá. Falta gente pra dar informação, falta organização, falta boa vontade, rolam alguns absurdos.
Mas deixando isso de lado, a exposição: é bem interessante. Achei bem organizada, bem pensada, e atende ao que se propõe: um panorama do patrimônio cultural dos povos indígenas que habitam o Norte do Amapá. Artesanatos, rituais, hábitos, trabalhos, design…sim, design! Achei muito bacana o foco na funcionalidade das peças, uma forma muito interessante de ir além da mera exposição de objetos como demonstração de uma cultura. Legal pra valorizar o trabalho dos designers, como meu irmão, cuja função não é apenas criar objetos belos, mas acima de tudo encontrar soluções para questões importantes do cotidioano, criando beleza sim, mas sobretudo funcionalidade.
E por conta das comemorações pelo dia do índio, estão acontecendo apresentações de dança e rituais indígenas. Essa semana, até dia 26 de abril, acontecerão apresentações de danças Fulni-ô, de Pernambuco (que, creio, foi o que assistimos hoje) às 10 e 15 horas durante a semana e às 15h nos finais de semana.
>
***
Por fim, uma dica gastronômica: Bar Urca. Gente…a comida é muito boa! Meu marido fala bem de lá há tanto tempo, não sei como eu nunca tinha ido!!! Virei freguesa. Ah, pra quem se aventurar: não se deixem enganar pelo cardápio, pratos que segundo eles servem duas pessoas na verdade servem três. Até porque ninguem come um pastelzinho ou uma empadinha só de entrada. O pastel de camarão é melhor que o do Alvaro’s, juro.

Publicidade – Spot Flex, “Waira” parto “El lugar más importante del mundo”
Sunday, April 19th, 2009Uma família, uma casa, um novo membro chegando. Nascimento no conforto do lar, na cama dos pais. Lindo, não? Eis uma propaganda de colchão.
Detesto as apelações a que recorrem os publicitários. Eles sempre tem mil justificativas, mas tem limite. Ao menos deveria.
Há quem ache exagero posições como a minha, eu mesma me pergunto mil vezes se não é. Mas não adianta. Sinceramente, não gostei.
E vocês? Assistam e me contem o que acharam.
Nossa Páscoa foi assim (post atrasadíssimo)
Sunday, April 19th, 2009




Preconceito e diversidade: “na teoria a prática é outra” – ou não seria o contrário? (post também atrasado)
Sunday, April 19th, 2009Vcoês conhecem essa expressão? Eu sempre a achei meio esquisita, ou melhor, ao menos nas situações em que já a ouvi usarem, não faz muito sentido pra mim.
Mas quero falar sobre diversidade e preconceito. E de enganos.
Costumo falar o quanto diversidade é importante, e da necessidade de criar nossos filhos desde pequenos em meio a ela. Sim, descobri isso recentemente na minha vida, e já me considerava uma defensora da diversidade…até entrar no teatro pra assistir a esse espetáculo.
Uma horda de crianças ensandecidas corria pela ante-sala da sala de espetáculo. Nada parecido como o que estou acostumada a ver nos lugares que frequento, como escola, festa de aniversário e teatrinhos do Shopping da Gávea. E olha que desde que me mudei e desde que Pipoca foi pra escola temos vivido alguma diversidade. Mas a aparência das crianças no teatro era de crianças de rua. Eram, depois descobri, de alguma comunidade carente, chegaram ao local em vários ônibus, acompanhados de alguns adultos. Confesso que fiquei apavorada e que pensei que nunca na vida tinha visto crianças tão mal-educadas. Pipoca ficou meio assustada com a zoeira, mas dentro do normal dela. Na hora em que as portas da sala abriram, quase fomos atropeladas pela mini-multidão enlouquecida. Já dentro da sala, esperando o espetáculo começar, pensei que não seria possível assistir, tamanha a bagunça.
Mas…pra minha surpresa e encanto, ao apagar das luzes fez-se o silêncio. As crianças, todas elas, ricas, médias e pobres, brancas, pretas, marrons, amarelas, vermelhas, e nas mais diversas idades, assistiram ao espetáculo com respeito e num silêncio normal em se tratando de teatro pra criança. Como no Shopping da Gávea. Como emqualquer lugar. Fiquei maravilhada…e mais consciente do que nunca dos meus pré-conceitos.
Não chegou a ser um tapa na cara, mas bom pra me mostrar que a gente muda, cresce e aprende, mas calma!, ainda tenho meus preconceitos, como qualquer humano. Sem julgamentos, essa sou eu.
Afinal, “na teoria a prática é outra”.
Viver, vida
Saturday, April 11th, 2009Como bem disse minha amiga Leilah, viver não e nada fácil, e acreditando nisso aproveito pra desejar a todos que nesse domingo de Páscoa aproveitem para renovar seu compromisso com a vida! Vou evitar blá blá blá a respeito da necessidade de aplicar isso e aquilo o ano todo e não somente em determinadas datas, porque aproveitar a ocasião para refletir e ritualizar não faz mal a ninguem.
E deixa eu me organizar aqui porque amanhã o coelhinho vai acordar cedo pra esconder um montão de ovinhos pela casa.
Uma boa Páscoa a todos!
Dica cultural para pequenos: Cia. Carroça de Mamulengos
Saturday, April 11th, 2009Está em cima da hora, já que amanhã rola a última apresentação da Cia. Carroça de Mamulengos, com o espetáculo Histórias de Teatro e Circo, mas nunca é tarde. Foi muitíssimo recomendado, e acredito que seja algo realmente diferenciado. Pretendia ir na 6a. e não pude, hoje tinha mil compromissos e duvido que consiga ir amanhã, uma pena. Atualização, domingo 12/4: consegui ir, hoje, em pleno domingo de Páscoa!!! É imperdível, um espetáculo encantador para adultos e crianças. Não se trata de entretenimento, mas de nutrição pra alma!
Aproveito pra agradecer à Angelica, que pelo twitter me incentivou a tentar ir em pleno domingo de Páscoa quando eu já estava achando impossível.
Ah, soube que eles ficarão pelo Rio por alguns meses: durante essa semana haverá uma oficina e em breve, espero, será possível vê-los de novo em algum outro teatro carioca. Ficarei de olho, porque agora virei fã.
Mas de qualquer forma fica a dica pra quem estiver no Rio, com disposição pra encarar um passeio com a criançada depois do almoço de Páscoa. Recomendo fortemente!

Humanização do nascimento, polêmicas
Monday, April 6th, 2009Embora esteja aprendendo a respeito e tenha o parto natural como um ideal, sempre questionei posições radicais. Por outro lado embora tenha sido uma vítima do intervencionismo médico, jamais me senti menos mãe ou mulher por conta disso e recebi as informações a respeito do tema de coração aberto, em momento nenhum fiquei na defensiva. Mas percebi que isso acontece com muitas mulheres, e acho uma pena.
Reproduzo integralmente o email abaixo, do obstetra humanizado Ricardo Jones, ativista da causa, enviado no último final de semana para a lista do grupo Parto Natural. O teor do email é definitivo pra mim, e é na esperança de que suas palavras toquem o coração de outras mulheres que o divulgo aqui. É longo, mas prometo: merece uma leitura atenta, e de coração aberto.
Ah, mais uma coisinha: eu teria tudo pra ser uma dessas mulheres no email qualificadas como “tropa de elite” da cesariana do Brasil: nível superior, classe média, madura e com cesariana prévia. Mas não serei, porque não quero e porque sei que posso fazer diferente e melhor.
“Daqueles que reclamam da barbárie da desconsideração e da indignidade da forma como conduzimos o nascimento humano no ocidente dizemos serem “chatos” e “xiitas”, mas não chamamos de violentos aqueles que, através do silêncio ou do escárnio, colaboram para a destruição sistemática do feminino na nossa cultura.”
Caríssimos radicais insensíveis que povoam meus dias:
Na internet está rolando um texto de uma gestante que está para ter seu segundo filho. Jornalista, casada com um escritor conhecido, ela discorre sobre as conversas desagradáveis que teve durante a sua atual gestação. Em ocasiões sociais algumas “radicais” lhe falaram das inquestionáveis vantagens dos partos normais sobre a alternativa cirúrgica, o que lhe causou irritação e inconformidade. A sensação que ela descreve é de que estas mulheres filtravam a maternidade através do parto natural, não permitindo que uma mulher pudesse sentir-se mãe tendo recebido seu bebê pela via operatória. É evidente que na gestação anterior ela sofreu uma cesariana. Nada mais natural, pois pertencendo a este extrato social – a classe média brasileira – a sua chance de ter um parto vaginal (não necessariamente “normal”) seria de menos de 15%. A justificativa para o procedimento veio na sentença curta e inquestionável que muitas mulheres escutam todos os dias nos hospitais do ocidente:
- Se quiser esperar mais, tudo bem. Mas o bebê pode entrar em sofrimento fetal.
Nas suas próprias palavras, mesmo sendo contra a sua vontade (e aqui “vontade” talvez não signifique o mesmo que “desejo”) a cesariana foi muito linda. Ok, o bebê no útero só pode fazer “sofrimento fetal”, mas a lógica cruel e inexorável da frase do seu médico está além da razão ou mesmo da concordância. As palavras deste(a) profissional são marcadas por uma brutalidade para qual não existe escapatória: não há como questionar, discutir, argumentar ou mesmo protestar. Não há recurso: Maktub!
Aquele que, em sã consciência, se permitiria enfrentar o poder médico numa circunstância como esta que atire a primeira pedra.
O nascimento de uma criança é sempre um evento lindo. Não há porque questionar que mesmo a mais violenta das cesarianas tem como resultado final o brotar de uma vida, e que este momento em si é revestido de uma beleza acima de qualquer discussão. Não se trata, assim, de obscurecer a luminosidade fulgurante que emana de cada vida que se faz. O que nos cabe fazer é interpretar a cesariana e seus determinantes, assim como a razão pela qual uma mulher escreve um texto reclamando de algo que ela chama de “patrulhamento xiita” dos defensores do parto normal.
Este texto não é um fato isolado na Internet. Podemos colocá-lo junto com alguns textos americanos e brasileiros recentemente escritos e que contém a mesma lógica. O texto sobre cesariana da Fernanda Torres está na mesma linha, obedece às mesmas premissas e chega ao mesmo ponto. Estes textos todos são escritos por pessoas que reclamam de algo que elas imaginam ser um “excesso de correção”. Possuem a mesma tonalidade das mensagens que criticam os “chatos antitabagistas”, os “chatos da alimentação natural”, os “chatos do parto normal”, os “chatos da reforma agrária”, etc.
É interessante notar que quando a “mensagem” já não pode mais ser racionalmente combatida as queixas se dirigem imediatamente aos “mensageiros”. Nesta etapa do amadurecimento das idéias – e do montante de informações e evidências – já não cabe mais se contrapor ao mérito de tais questões: não há mais espaço para defender o cigarro, a cesariana desmedida, o latifúndio improdutivo ou a comida ‘lixo’ que enfiamos goela abaixo. Entretanto algumas pessoas se irritam com a pressão que a sociedade exerce para que elas construam para si – e para os que as cercam – atitudes conscientes, positivas, saudáveis e ecologicamente determinadas.
Ao mesmo tempo em que estas pessoas tentam se contrapor à avalanche de dados, pesquisas e evidências que mostram a correção destes postulados, elas não suportam serem cobradas quanto à uma mudança de postura. Sentem-se amordaçadas pelo “politicamente correto”. Claro que existem chatos, e até entre os que defendem o parto natural, mas os chatos “ecologicamente corretos” são em número infinitamente menor do que aqueles que vomitam fumaça, MacDonalds ou cesarianas injustificadas na sua cara sem a menor cerimônia ou pudor. Para cada “chato do parto humanizado” existem 10 pessoas chatas e inconvenientes que debocham de quem ganha filhos “como bicho”. Estas são em número muito maior, mas como estão nadando no ‘mainstream’ não parecem fazer tanto barulho.
“Dos rios dizemos violentos, mas não chamamos violentas as margens que o oprimem” já dizia Bertold Brecht. Maximilian sempre me ensinou que aqueles que reclamam da barbárie da desconsideração e da indignidade da forma como conduzimos o nascimento humano no ocidente dizemos serem “chatos” e “xiitas”, mas não chamamos de violentos aqueles que, através do silêncio ou do escárnio, colaboram para a destruição sistemática do feminino na nossa cultura. Ele se insurgia contra essa injustiça e essa cegueira auto-induzida.
A verdade é que este texto, assim como os outros que reclamam do patrulhamento da amamentação e de outras condutas sabidamente positivas, apenas demonstra a tremenda dor que esta mulher ainda sofre por sua cesariana. Seu texto nada mais é do que uma tentativa de proteger-se através de uma “declaração antecipatória” para, caso volte a ter outra cirurgia, ela já esteja prevenida (o que é quase inevitável visto pertencer à “tropa de elite” da cesariana do Brasil – nível superior, classe média, madura e com cesariana prévia).
“Não me critiquem e não me patrulhem, e nem sequer me falem de parto normal, senão solto os cachorros de novo”.
Espero que desta vez ela possa ter um parto empoderador e maravilhoso, mas também nutro a esperança de que ela se liberte do comportamento “xiita” de patrulhar os humanistas. Para mim o texto dela descreve muito mais a ela mesma do que as mulheres cujas atitudes condena. Patrulhamento por patrulhamento, eles se igualam no dogmatismo inerte, mas pelo menos o humanístico e ecológico é mais solidário e progressista.
Beijos
Ric
PS: Ninguém é mais mãe ou mais mulher por ter feito parto normal, assim como ninguém é mais homem por possuir as duas pernas. Entretanto, valorizo o parto normal como um importante componente da história de uma mulher, tanto quando entendo como sagrada a integridade física de qualquer pessoa. (Max)


